24/07/2014

(Resenha) Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida




O livro é dividido em duas partes. A primeira parte, com 23 capítulos, vai do nascimento até o começo de adolescência de Leonardo, o protagonista. Por conta do adultério da mãe, os seus pais se separam logo nas primeiras páginas e ele passa a morar com seu padrinho. O pai de Leonardo nem ao menos cogita em cuidar dele após a separação por conta de sua personalidade travessa.

Na segunda parte do livro, com 25 capítulos, Leonardo já está adolescente e surge o seu primeiro amor, Luisinha. Inicialmente, Leonardo a considerava uma menina feia e desengonçada, o autor foge do romantismo ao descrever o primeiro amor do protagonista como sendo "alta, magra, pálida", com os "braços finos e compridos", despenteada e amuada, no entanto Leonardo começa a ver beleza na garota e essa ideia se modifica. A figura do cruel Vidigal, uma espécie de policial e juiz que metia medo a qualquer desocupado, está sempre próxima, cuidando da segurança do Rio de Janeiro.

O autor sempre mantém segredo em relação aos nomes dos personagens, um artifício que ele soube usar muito bem. Somos sempre levados a virar a página para descobrir o nome do novo personagem e quais serão suas ligações com os personagens já existentes. O segundo nome dos personagens é apresentado, geralmente, como uma característica da sua personalidade. Por exemplo, a mãe de Leonardo se chama Maria da hortaliça e ela é uma saloia (camponesa).

Os personagens são bem típicos da época em que foi escrito o livro: tem o rapaz que nunca trabalhou, mas que vive muito bem; as mulheres são muito religiosas, obrigadas a casar após a sua primeira menstruação, e as que fogem desse padrão são mal vistas pela sociedade. O pior personagem, a meu ver, é Leonardo-Pataca, pai de Leonardo. Ele não dá a mínima para como e onde seu filho está. Leonardo não é lá o melhor filho, mas é filho, não é? E quer dizer que só por que a mulher o largou ele precisa esquecer que tem um filho?

A história é contada sem muitos diálogos. O autor muitas vezes faz uma síntese da cena, algumas são até convenientes, outras, entretanto, me deixaram irritada, pois queria uma descrição minuciosa de cada gesto e queria saber cada vírgula do que os personagens falavam. O narrador personagem também ia dando seus pitacos no decorrer da história.  

Memórias de um Sargento de Milícias pertence ao Romantismo, escola literária onde as histórias são mais açucaradas, como o próprio nome diz, as histórias são mais românticas, o amor é espiritualizado. O livro, ao mostrar como era a sociedade na época em que a família real veio (fugiu) para o Brasil, apresenta características do modernismo que, 70 anos depois, pregaria um maior contato entre a vida e a literatura. Ao criar um anti-herói, Memórias de um Sargento de Milícias ainda possui características do realismo. Em suma, o autor criou uma obra original, para uma época em que os romances eram açucarados e os protagonistas tinham poucos defeitos.  

Olha não é só por que o livro é um clássico que eu terei de dizer que ele é perfeito. Memórias de um Sargento de Milícias possui um enredo muito repetitivo. Por exemplo, a primeira parte, com 98 páginas, narra todas as travessuras da infância de Leonardo, algumas eu achei desnecessárias. A segunda parte já melhora bastante, não pelo fato do romance entrar na história, mas sim por haver mais ação nas cenas. A personalidade vadia do Leonardo é colocada mais em ênfase, trazendo mais humor ao livro.

E quanto ao título? Bom, no início não o entendemos muito bem. Só no final é que as coisas vão clareando em nossa mente.

Atualização 25/07/2014: Memórias de um Sargento de Milícias foi o primeiro livro, a nível nacional, a tratar do adultério por parte de uma mulher sem deixar nenhum dúvida no leitor sobre o fato.

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Título: Memórias de um Sargento de Milícias 
Autor: Manuel Antônio de Almeida
199 páginas
Editora: Paulus
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6 comentários:

  1. Um livro bem interessante ao que li na sua resenha! E, poxa, se casar após a primeira menstruação? God!
    Amei a corujinha do blog, curti o blog e estou seguindo!

    http://gabryelfellipeealgo.blogspot.com.br/
    El Costa, do Confins Literários.

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    1. Se casar após a primeira menstruação, ser uma espécie de serviçal (em todos os sentido) do marido, dentre outras barbaridades da época. Ainda bem que vim ao mundo quando as mulheres já são tratadas como cidadães, e não como um enfeite ou um "objeto sexual". Os livros dessa época procuram não dar muita ênfase a isso em suas narrativas, pois quem lê mais esses romances são as mulheres e a leitura é uma válvula de escape em todas as épocas.
      A corujinha é uma fofura mesmo! Obrigada por seguir e curti e volte sempre que desejar!

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  2. Nossa, eu adorei demais sua resenha, ficou bem completa e interessante! Quando li esse livro fiquei meia entediada porque ele é bem parado, mas o livro é legal no final das contas e vale a pena ser lido...

    Beijinhos, Thamires R.
    http://marcaprovisoria.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Thamires, não vamos negar, o livro dá um tédio nas primeiras partes, mas logo ele começa a ficar interessante. Fico feliz que tenha gostado da minha resenha. Beijinhos.

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  3. Eu acho que sou mto chata, eu gosto mais da literatura nacional contemporanea, essas mais antigas acho que sou meio traumatizada por ter sido forçada a ler na escola e não curto de jeito nenhum e ainda não dei uma nova chance pra eles hehe
    Beijos,

    Amanda
    Divã Literário

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    1. Oi, Amanda! Essas leituras obrigatórias são mesmo um problema. Estou esperando o dia em que as escolas e os professores irão se dar conta de que essa atitude já afastou muita gente da literatura. Eles são sem noção, colocam MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS para uma criança de 11 anos ler! É muito provável que a criança não entenda nada do livro, ache chato e ainda fique traumatizado, a sorte é quando o trauma é voltado só para os clássicos e não para os livros em geral. Sugiro que dê uma chance aos clássico. MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS é um ótimo livro, só que a linguagem rebuscada e a narrativa lenta pode causar tédio se lido em uma determinada idade (há exceções, já ouvi pessoas dizendo que leu o livro ainda criança e gostou bastante.)
      Beijinhos e obrigada pela visita!

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